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DEIXA ACONTECER - CELSO CARDOSO POR MAURO BETING
Abro o jogo: amigos, amigos, música à parte. Sou dos que são capazes de
perder o amigo a perder o jogo, dos que trocam de chapa mas não trocam de
canção no rádio. Celso Cardoso é amigo há 18 anos. Marcos Kleine é amigo há
seis. Um de ofício, outro de fé. Ambos de futebol e rock & roll. Algo que
nem Chico Buarque consegue rimar com categoria, por mais que a bola role e
não crie musgos.
Celso Cardoso e os Impossíveis honraram o nome. Da balada para toda as
noites ao rock de todas as manhãs, do trombone que desaba queixo de Bocato
ao alto baixo de Mingau, da bateria carregada de Caio Mancini ao credo do
missionário Wayne Hussey (co-autor da faixa-título "Deixa Acontecer"), o que
há de rock, de pop, de swing, de blues, de flamenco está em dez canções que
dão a pista do que são a voz fiel de Celso e a produção santa de Marcos -
nenhuma alusão às paixões do jogo, apenas uma constatação do que a música
pode fazer.
Como descrever um gol e um som? "Flores do Mal" é rendição para decolar do
Barão Vermelho, com ecos de Bocato floreando a bela voz do múltiplo Celso,
dos poucos jornalistas esportivos capazes de analisar, apresentar, narrar,
reportar e entender o futebol. Nada mais natural que ele possa cantar os
vários sons da cidade. Pode se ouvir ao fundo e profundo o Frejat que
ilumina muitas faixas. Reverberam tons e toques do trovador urbano italiano
Ligabue em algumas canções, naquela conjunção sônica que não se explica de
raízes que crescem tão distantes e acabam dando ar e conforto às tantas
cidades que parecem uma só paróquia sob a sombra de uma árvore com muitos
frutos.
Celso Cardoso canta para você como se estivesse num estádio de rocks e de
craques. Não berra, tenta se comunicar como o jornalista que sabe qual é seu
jogo. Mas que sabe que precisa estar do outro lado para saber todas as cores
e credos da vida. Marcos Kleine assume e assina a produção com a mesma
categoria dos projetos solo, com a banda Vega, e com músicos como Léo Jaime
e a Fabulosa Orquestra de Rock 'n' Roll. Todos amantes do alto e ótimo som
de guitarras e chuteiras.
O time de colaboradores bate um bolão: o baixista norte-americano Victor
Rice toca violoncelo em "O Pior que Existe em Mim", inédita de Leoni, que
assina outras três canções. As releituras de "Nós" (do cancioneiro de Cássia
Eller) e "Noite de Balada" (Golpe de Estado) são reverências e referências
de um apaixonado pela música sem os rótulos que nós (jornalistas) adoramos
carimbar - e parece que amamos errar a cada plunct, plact, zum.
O espírito do primeiro trabalho da liberdade ainda que tardia de Celso
Cardoso é o mote da canção inédita de Pit Passarell, do Viper, que abre o
álbum de paisagens sonoras: "Vamos Comemorar". O disco e a amizade.
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